Começa-se a lê-lo como um romance e depois se descobre que a prosa lírica de Clarice Lispector ultrapassa os moldes de qualquer romance, aliás, a história não tem formato definido. Apesar de ter sido acusada por possuir características literárias ligadas a certo hermetismo a escritora arrebata corações e almas em Água Viva. Clarice utilizava a técnica do fluxo de consciência, onde os pensamentos jorram e são transcritos para o papel na forma como surgem. Neste livro um “eu”, subtendido no feminino, escreve cartas carregadas de sensualidade sutil a um “tu”, masculino. O conteúdo das cartas são confissões intimistas de ansiedade e buscas de respostas em relação ao mundo e à sua própria existência humana. Temas como a solidão, o porque de se viver, os sofrimentos mundanos, as inquietações inerentes às respostas não encontradas de tudo aquilo que nos incomoda, paradoxalmente, perturba a personagem, queima como a própria água viva na pele. No começo a sensação é de que nada se entende do livro, porém, quando a última página é lida o mapa completo do belo poema em prosa de Clarice se estrutura e a sinergia com a personagem, com a protagonista, é real, é perfeita e tudo se torna entendível, tudo faz sentido. Nesse momento, nos identificamos com ela, mergulhamos no desconhecido, que, ao mesmo tempo, é tão familiar. Como o que? Como a felicidade, por exemplo, os instantes fugidios desse sentimento que eu, você, nós buscamos incessantemente pela vida. É possível captar os momentos em que o “eu” é feliz, como no trecho que dá início ao livro: “É com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com ao mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica.” Água viva é leitura obrigatória para quem vive sem receitas prontas, para quem busca algo ou para quem só quer apenas viver, nada mais.
Vencedor do Prêmio Goncourt em 2007 por melhor romance o livro Alabama Song de Gilles Leroy conta a história de amor entre Francis Scott Fitzgerald e sua mulher Zelda a partir de 1918 quandos eles se conheceram. O autor relata o relacionamento conturbado e explosivo na visão da personagem Zelda e também reconstrói a ascensão de Fitzgerald como escritor célebre, as aventuras em Nova York e, principalmente, as crises do casal. Acontece que no final do livro o leitor descobre que tudo é irreal e as histórias contadas são fruto da imaginação de Leroy.
Suave é a Noite e O Grande Gatsby são dois da coleção de clássicos que Fitzgerald deixou como escritor. Falecido em 1940 retratou como ninguém a euforia nos Estados Unidos no período antes da Depressão e mostrou através das palavras, com grande louvor, as angústias, medos e ansiedades de uma juventude que, sem escolha, teve que conhecer e se deparar com os horrores da guerra.
Um livro interessante que traz à tona detalhes da vida do casal que protagonizou escândalos mas que também contribuiu muito para a literatura americana.
Influenciada pelo “boom literário” que o anúncio do Nobel de Literatura 2010 causou ontem no mundo lembrei-me de outro ganhador do prêmio, não menos importante que o atual. William Faulkner, um dos maiores escritores do século XX, recebeu o nobel em 1949. Conhecido por utilizar a técnica do fluxo de consciência, exacerbada por outros célebres como James Joyce, Virginia Wolff e Thomas Mann, para quem lê Faulkner entende porque sua obra é hermética e se torna uma leitura desafiadora.
Estou lendo Palmeiras Selvagens, história que se divide entre duas narrativas diferentes. Em um capítulo, cujo nome dá o título ao livro, conta a história de uma mulher casada que abandona o marido por uma paixão por um recém formado médico que é virgem aos 27 anos. Os acontecimentos na vida do casal vão se desenrolando de tal forma que ambos se vêem envolvidos sem querer em situações de uma vida difícil e sem controle. De certa forma, é uma crítica à sociedade burguesa americana e ao capitalismo instituído sem opção, já que o casal tenta viver fora de tal sistema social.
Simultaneamente, mas sem ter nenhuma relação com a história anteriror, outro capítulo, denominado O Velho, descreve a saga de um grupo de presidiários de uma fazenda penal no Mississipi que são deslocados de caminhão para outro lugar devido a uma enchente. Durante o translado para um bote um presidiário (que havia sido condenado por uma ridícula tentativa de assalto a um trem arquitetada inteira da leitura de folhetins) cai na água e é dado como desaparecido, morto.
Parei nesta parte da leitura até ontem. O fato é que o estilo da literatura de Faulkner é complexa e exige profunda concentração para entender, diversas vezes me peguei lendo e relendo um parágrafo ou uma página. Estes parágrafos são longos, com pontuação irregular, esparsa e inexistente em alguns pontos. É possível visualizar todo um pensamento e suas nuances, parafraseado com descrições extremamente detalhadas acerca de situações, bem a “la Clarice Lispector” (esta também considerada hermética). Impossível ler Faulkner sem abraçar o texto com vontade inexorável para entender, gostar e reconhecê-lo.
Terminei de ler Leite derramado de Chico Buarque. O pano de fundo é parte da história do Brasil relativo aos dois últimos séculos. O romance relata, em primeira pessoa, as lembranças da vida de um homem centenário, Eulálio. De conteúdo dramático e nostálgico o passeio pela sua história traz toda uma carga de sentimentos que traduz, embora de forma propositadamente entrecortada, as dores e descaminhos de relações familiares despedaçadas. A história não tem ordem cronológica definida, de modo que as recordações do personagem se embaralham numa mente perturbada e confusa, como num quebra-cabeça que vou montando aos poucos, devagar. E à medida que fui conhecendo todos criei laços de empatia e sofri todas as dores. Quais dores? Talvez a mais marcante delas seja a paixão mal resolvida com o grande amor, Matilde, que o abandonou sem maiores explicações, e à filha pequena, e sumiu no mundo para nunca mais voltar. Outra é a decadência econômica e social de sua família, de seus antepassados, gerando inconformidades e tristezas avassaladoras recorrentes em sua fala. Entretanto, o sentimento que permeia no romance e em seus personagens é a solidão, seja em Eulálio preso a um leito de hospital público após uma história de honrarias e riquezas, seja em sua filha Eulalinha que se afoga em traumas e desencontros consigo Continue lendo »