TEATRO

TEATRO DE SOMBRAS

O teatro de sombras chinês e o ritual de Louven, na Bélgica, ingressaram neste sábado na Lista Representativa de Patrimônio Imaterial da entidade da Unesco. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura está reunida em Bali, na Indonésia, para estudar 38 propostas, de 20 países, candidatas a entrarem na lista. A entidade já havia reconhecido duas instituições brasileiras como boas práticas de proteção do patrimônio mundial: o Museu do Fandango e o Programa Nacional de Patrimônio Imaterial (PNPI). Ambos farão parte do Registro de Práticas Idôneas de Salvaguarda da Unesco. O teatro de sombras chinês reúne manipulação de marionetes, canto, literatura oral e artesanato. Os representantes da candidatura alegaram que a manifestação envolve história cultural, crenças sociais e costumes locais. A outra tradição registrada pela Unesco são os rituais praticados por homens na cidade belga de Louven. Quando completam 40 anos, eles devem realizar atividades filantrópicas até atingirem 50 anos. Os representantes belgas destacaram que esta atividade, que já é pratica há mais de um século, não é uma atração turística mas está relacionada com as comunidades locais e promove o diálogo com os visitantes. Após o ingresso das duas tradições, o grupo reunido em Bali, formado por 24 países, irá analisar as outras candidaturas. Desde 22 de novembro, o comitê de analistas aprovou 11 incorporações à Lista do Patrimônio Cultural Imaterial que precisa proteção urgente. Entre os aprovados, está o rito Yaokwa da tribo dos Enawene Nawe, do Matro Grosso.

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THÉÂTRE DU SOLEIL

Théâtre du Soleil ganhou destaque na agenda cultural da cidade de SP, pois, pela primeira vez, a consagrada diretora Ariane Mnouchkine e sua trupe encenaram “Os Náufragos da Louca Esperança” por aqui, durante este mês. Os ingressos das apresentações se esgotaram no primeiro dia de venda e muita gente não conseguiu lugar na plateia. Para esses – e também para aqueles que viram a peça e se interessam pelo trabalho do grupo -, acaba de chegar às livrarias “A Arte do Presente”. O volume reúne uma série de entrevistas feitas com Ariane pela autora do livro, a crítica teatral Fabienne Pascaud. Outra oportunidade para conhecer a fundo uma das maiores diretoras em atividade no mundo é a exibição na Sesc TV  do documentário Ariane Mnouchkine e o Théâtre du Soleil. O programa apresenta a trajetória do grupo, com fotos e cenas dos famosos workshops de teatro ministrados por Ariane ao redor do mundo. Juntos, livro e documentário se complementam na missão de recriar os primeiros passos da companhia e mostrar o que fez dela um sucesso.

Filha de pai russo e mãe inglesa, Ariane Mnouchkine nasceu em Paris, em 1939. Seu pai, Alexandre Mnouchkine, era produtor de cinema. Na publicação, a diretora lembra dos sets onde esteve ao lado dele. A relação com o teatro começou durante um período em que ela esteve na Inglaterra, estudando na universidade de Oxford. Foi ali que o teatro universitário conquistou seu coração. De volta à França, estudou psicologia em Sorbonne e fundou a Associação Teatral dos Estudantes de Paris, ao lado de colegas. Em maio de 1964, nasceu o Théâtre du Soleil. Ariane tinha 25 anos. A primeira montagem do grupo foi “Os Pequenos Burgueses”, de Górki, que obteve um certo reconhecimento local. Para dirigir a peça, Ariane conta que fazia a marcação dos atores com soldadinhos de chumbo em uma maquete. Os atores mais experientes ainda implicavam com o jeito dela trabalhar. Uma das boas histórias do período é a de que o grupo cogitou financiar as peças criando carneiros. Para isso, um dos atores chegou a se inscrever em um curso preparatório. Uma das explicações para o êxito do Théâtre du Soleil deve estar na paixão da mestra, que fala, encantada, sobre os espetáculos, nos quais diz sempre notar algo novo. Em um dos encontros com a autora de “A Arte do Presente”, Ariane garante: “O teatro pode contar tudo! Nós é que nem sempre sabemos fazê-lo”. Humilde, como os sábios são.

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BALANGANGUERI

Em “Balangangueri”, novo espetáculo da cia. Ludens, narra o calvário de uma mulher atormentada pelo próprio passado, a história de alguém que empacou em um trauma. Escrita pelo irlandês Tom Murphy, a peça que chega sábado ao Sesc Belenzinho é, na verdade, uma junção de dois textos. Em um deles, duas netas acompanham a agonia da avó, Momo. Há anos, ela repete a mesma história. E, invariavelmente, interrompe o relato no mesmo ponto. Antes do fim. Tal qual um Sísifo, seu destino parece ser um castigo eterno e infernal. Todo dia, ela rola a pedra da sua narrativa até o alto da montanha. Para depois, em vão, vê-la desabar morro abaixo. Na segunda obra que compõe a atual versão, não por acaso escrita no mesmo ano, acompanhamos apenas o desenrolar desse episódio que a senil senhora não consegue contar integralmente. Trata-se de uma estranha noite, quando ela e seu marido param em uma taberna e participam de um invulgar concurso de risadas. Será a partir dali que suas vidas mudarão para sempre. Vem de longa data a predileção do diretor Domingos Nunez pela dramaturgia irlandesa. Desde 2003, montou quatro peças de autores do país. Entre elas, um texto menos conhecido de Bernard Shaw, “O Idiota no País dos Absurdos”. E, recentemente, “O Fantástico Reparador de Feridas”, de Brian Friel. “Balangangueri” já estava nos planos da companhia havia algum tempo. Inédito no Brasil, Murphy é dono de uma obra virulenta. Neste texto, mostra-se capaz de trafegar pela morte, pelo humor, pelo desespero humano. Encená-lo, contudo, representava um desafio extra para a direção: como dar forma ao devaneio da protagonista? Como corporificar uma dimensão onírica?

Em cena, a plateia verá tempos e espaços distintos se confundirem. Uma opção que, para se concretizar, movimenta as mais diversas referências. Amálgama de símbolos de tarô com a noção de carnavalização de Mikhail Bakhtin. Encontro do universo das histórias em quadrinhos com o conceito de inconsciente em Lacan, estruturado sempre pela linguagem. A atriz protagonista é Denise Weinberg. Tantas possibilidades de interpretação demonstram a singularidade da estrutura dramática de Murphy: autor afeito aos princípios que norteiam a criação contemporânea.

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JOÃO PAULO CUENCA

O escritor João Paulo Cuenca faz sua estreia como diretor teatral. Segundo ele “O trabalho do romancista é muito solitário, é desgraçado. Um inferno. Vou continuar escrevendo meus livros, mas tenho necessidade de alguma interlocução mais presente, mais humana”. Assina, em parceria com Fernanda Félix, a dramaturgia e a encenação de “Fragmentos”, espetáculo que entrou em cartaz fim de fim de semana passado no Espaço Oi Futuro, do Rio, e que é, declaradamente, inspirado em “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, o celebrado livro de Roland Barthes. João toma emprestado do autor francês a imagem desse ser enamorado que fala constantemente de si diante do outro. Alguém que cria, no próprio discurso, uma história de amor. História essa que a linguagem não cessa de reinventar e ressignificar. O mote da peça pode ser o mesmo do livro, mas a forma de engendrá-lo é diversa. O formato palimpséstico utilizado por Barthes, que movimenta recortes do tecido amoroso, não vai à cena. Na contramão, “Fragmentos” tenta erigir uma narrativa. Repousa sobre o percurso de um casal. Ainda que isso não signifique uma fábula coesa, com princípio, meio e fim. Não é a primeira vez que João Paulo Cuenca envereda pela dramaturgia. E, ao que parece, não será a última. Antes de “Fragmentos”, ele escreveu “Terror”, texto que mereceu encenação de Pedro Brício. Em 2010, também ensaiou os passos como roteirista de televisão: foi um dos autores da série “Afinal, O que Querem as Mulheres?”. Agora, o próximo plano é lançar-se como cineasta.

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