AS VOZES E A PAIXÃO POR TELEFONES
Era cedo, pouco mais das 8h da manhã de um sábado. Ainda estava dentro de um meio sonho que, para quem não sabe, é quando você participa do sonho e se perde em confusões, mas já sente o mundo real e fica na cama lidando com o terrível fato de que vai ter de abandonar o aconchego em breve para enfrentar o dia. Para minha alegria era sábado! Acontece que o telefone não parava de tocar, ficava longe de onde eu estava. Em virtude da insistência tive medo que fosse algo sério e levantei-me para atender. A voz feminina e tensa do outro lado perguntou por mim, sonolenta e sem conseguir pensar direito respondi que eu tinha ido viajar, a voz queria detalhes, quanto tempo iria ficar, quando poderia falar comigo, já acordada e preocupada falei que estava longe a trabalho e voltaria dali uns 15 dias. A voz perguntou o que eu era de mim mesma e tranquilamente respondi que era minha irmã. Para finalizar indaguei sobre o que se tratava. “É da Oi”. Depois de constatar que nada devia e que eles só poderiam estar querendo me vender algo voltei, aliviada, para a cama. Nos próximos dias outras vozes ligavam do mesmo lugar, do mundo Oi, perguntando as mesmas coisas e comecei a ficar com medo. Concluí que as vozes não tinham comunicação entre si porque eu repetia a mesma história e tudo bem. Até que um dia a empregada atendeu, veio me chamar dizendo “É urgente, é da Oi”. Com firmeza a mandei dizer que estava fazendo intercâmbio de 6 meses fora do país. Sei que algumas vozes sabem das minhas mentiras, o que eles nunca saberão é que adquiri certo trauma quando o assunto é companhias de telefone, mas, por outro lado, eu amo telefones.
Comprei minha primeira linha telefônica há muitos anos atrás (Algo estranho para os jovens que leem isso agora, eu sei. Não, não sou velha! É que os tempos mudam muito rápido mesmo!) e coloquei o aparelho do lado da minha cama, um toque estridente e gostoso. Estava tão encantada pela invenção de Alexander Graham Bell que mal saía do quarto para ficar horas pendurada no tal aparelho falando com as amigas. Hoje, o que me atrai não são os novos modelos de celular ou o último Iphone. Estranhamente o que desperta minha atenção são aqueles modelos de telefones antigos, pretos ou vermelhos, de parede. Sonho com um desses na minha casa e quase surtei numa feira de antiguidades em São Paulo com todos aqueles modelos antigos enquanto meu acompanhante tinha uma crise de renite atrás de mim. Tudo o que queria era comprar o objeto de cerca de R$ 3.000,00 e trazê-lo no avião com um sorriso de conquista no rosto. Bom, é possível que as vozes achassem tudo isso patético, o fato é que elas continuarão me procurando em vão para vender planos que não são cumpridos. E que ninguém me entregue!