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À ESPERA

Em sintonia com tudo o que surge à nossa volta vivemos sempre à espera, alerta e constantemente esperando. O problema é que quase ninguém sabe o que, mas sabe que é algo, pode ser bom ou pode ser ruim, depende. O ser humano tem guardado nos cantos mais escondidos da alma o desejo de que alguma coisa aconteça e de que esse isso mude sua vida, que o tire do tédio da monotonia de dias iguais e previsíveis. Uma grande maioria não quer esta vida certinha, não quer os compromissos burocráticos nem seguir as regras que lhe colocaram diante do nariz e disseram: siga e não pergunte nada! E sim almejam mais, muito mais da vida, sentem a veia pulsando dentro de si para fazer o que lhes dá vontade, porém, inexplicavelmente cai do nada a bula alertando de todas as contra-indicações e o famoso bom senso volta com força total. Embora muitos nunca descubram do que exatamente é esta tal vontade.

Uma novidade, um telefonema, um presente, um e-mail aguardado, uma decepção, uma fofoca, um resultado alcançado, um almoço, um jantar, um encontro inesperado, um fora, um convite. São tantos pequenos ou grandes acontecimentos no nosso dia-a-dia e é através disso que as situações vão mudando e os fatos tomam forma construindo nossa história a passos lentos. E aí não podemos reclamar, ora, a vida não está parada, ela está andando. Só que somos homens e mulheres insatisfeitos com esse pequeno cofrinho de acontecimentos, queremos grandiosidade, queremos sorte e, finalmente, que tudo mude assim, da noite para o dia. Se foi possível com fulano ou sicrano porque não pode acontecer comigo também?

Quem espera sempre alcança, já dizia o ditado antigo. Alcançar o inalcançável é mais difícil para quem vive no mundo real e poucos conseguem. Clarice Lispector escreveu “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” Viver pode ser tremendamente inquietante e dolorido para os que não encontraram os nomes certos para seus desejos, contudo, é fato calmante e orientador pensar que posso dar o nome que eu quiser para aquilo que talvez ainda não saiba o que é. O importante é me encontrar em mim mesma para ir de encontro a tal espera em vez de ficar olhando para saber quando ela chegará. As esperas de uma vida talvez não façam a menor diferença no final de tudo, no final do caminho, mesmo assim é importante que façamos de tudo para torná-las o mais agradável possível.

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ÁGUA VIVA

Começa-se a lê-lo como um romance e depois se descobre que a prosa lírica de Clarice Lispector ultrapassa os moldes de qualquer romance, aliás, a história não tem formato definido. Apesar de ter sido acusada por possuir características literárias ligadas a certo hermetismo a escritora arrebata corações e almas em Água Viva. Clarice utilizava a técnica do fluxo de consciência, onde os pensamentos jorram e são transcritos para o papel na forma como surgem. Neste livro um “eu”, subtendido no feminino, escreve cartas carregadas de sensualidade sutil a um “tu”, masculino. O conteúdo das cartas são confissões intimistas de ansiedade e buscas de respostas em relação ao mundo e à sua própria existência humana. Temas como a solidão, o porque de se viver, os sofrimentos mundanos, as inquietações inerentes às respostas não encontradas de tudo aquilo que nos incomoda, paradoxalmente, perturba a personagem, queima como a própria água viva na pele. No começo a sensação é de que nada se entende do livro, porém, quando a última página é lida o mapa completo do belo poema em prosa de Clarice se estrutura e a sinergia com a personagem, com a protagonista, é real, é perfeita e tudo se torna entendível, tudo faz sentido. Nesse momento, nos identificamos com ela, mergulhamos no desconhecido, que, ao mesmo tempo, é tão familiar. Como o que? Como a felicidade, por exemplo, os instantes fugidios desse sentimento que eu, você, nós buscamos incessantemente pela vida. É possível captar os momentos em que o “eu” é feliz, como no trecho que dá início ao livro: “É com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com ao mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica.” Água viva é leitura obrigatória para quem vive sem receitas prontas, para quem busca algo ou para quem só quer apenas viver, nada mais.

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SIMPLESMENTE EU

 

Está em cartaz em São Paulo a peça de teatro Simplesmente Eu, interpretada por Beth Goulart, sobre a vida de Clarice Lispector.   O espetáculo mostra o caminho percorrido pela escritora rumo ao amor, ao seu universo e às suas dúvidas e contradições. O conteúdo é baseado em textos extraídos de depoimentos, entrevistas, correspondências e trechos dos livros Perto do Coração Selvagem, O Livro dos Prazeres, além dos contos Amor e Perdoando Deus.

Beth Goulart mergulhou na vida da escritora e dá vida ao personagem num palco onde prevalece cores neutras. Um pequeno sofá ao lado de uma mesa com uma máquina de escrever em cima bastou para a  atriz, com sotaque idêntico à Clarice, emocionar e fazer pensar. Poucas trocas de roupas, não mais que cinco.

Li a biografia de Clarice, porém, mesmo para quem não leu foi possível conhecer, através do monólogo, importantes momentos e fatos da vida da escritora. Um deles é o fato de que Clarice nasceu para salvar sua mãe. Durante a Segunda Guerra os nazistas invadiram a Ucrânia e atacaram o pequeno lugarejo onde vivia sua família, a mãe de Clarice foi estuprada por soldados e contraiu sífilis. Doente e acreditando na superstição popular da região de que um filho traria sua saúde de volta Mania engravidou e assim Clarice nasceu.

Sua mãe morreu mas com certeza a literatura de Clarice salva até hoje muitas pessoas e nos torna seres humanos melhores, segundo afirmou Beth Goulart no fim da peça, sob muitos aplausos. Depois, para finalizar, sorteio de três livros para a platéia que, mais uma noite, lotou o Teatro Renaissance.

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JOANA E CLARICE

“Neste instante eu estava verdadeiramente no meu interior e havia silêncio. Só que meu silêncio, compreendi, era um pedaço do silêncio do campo. E eu não me sentia desamparada. O cavalo de onde eu caíra esperava-me junto ao rio. Montei-o e voei pelas encostas que a sombra já invadia e refrescava. Freei as rédeas, passei as mãos…Uma cor maciamente sombria deitara-se sobre as campinas mornas do último sol e a brisa leve voava devagar. É preciso que eu não esqueça,  pensei, que fui feliz, que estou sendo feliz mais do que se pode ser. Mas esqueci, sempre esqueci. “

Um trecho dos pensamentos e sentimentos de Joana, personagem protagonista do livro Perto do coração selvagem de Clarice Lispector, lembra um que de liberdade ou pelo menos a busca dela. Através da leitura da biografia da escritora é possível perceber claramente que Joana é Clarice e Clarice é Joana. Criadora e criatura se fundem numa complexidade interior que faria Freud se calar ante o desenlace de questionamentos e angústias que se vai vivenciando a cada página. O hermetismo do texto é latente, mas ao mesmo tempo, Clarice deixa frestas para o leitor espiá-la e penetrar em sua atmosfera mágica cujos elementos vão tomando forma ao se acompanhar a vida de Joana. O retrato psicológico da escritora ganha vida nas entrelinhas e nos permite conhecer quem foi a mulher que conquista gerações com seus livros.

Liberdade é pouco, o que eu quero não tem nome. Essa frase marcante de Clarice aparece no romance e para entendê-la é necessário ler o livro. Realmente, liberdade era algo muito pobre para ela e talvez  teve o que queria ou buscava na vida, mesmo que nunca tenha descoberto o nome.

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