Tag Drummond

A ÚLTIMA CRÔNICA

Domingo, dia 13, é o Dia das Mães. Parabéns antecipado a todas as queridas mães! É um dia muito feliz, um domingo do qual eu sempre gostei. Em maio de 2010 escrevi para a Revista Blush uma crônica para homenagear as mães, dedicada para Lady Cleide, minha mãe, fazendo uma analogia com a música do Roberto Carlos. O pessoal da redação caprichou e colocou, na palavra MÃES, as cores vermelho, rosa e laranja com corações, flores e bolinhas. Na casa de Lady Cleide tudo estava perfeito! Almoço especial, sorrisos, as três filhas, presentes, alegrias e música. Como um dos presentes entreguei a folha da Blush enrolada e amarrada com uma fita de cetim branca, o outro presente estava em uma caixinha prateada também com um laço da mesma fita. Minha mãe leu a crônica, adorou, chorou e guardou. Eu também adorei, desde o momento em que a escrevi até o momento em que ela leu e agradeceu. Era uma crônica grande e um de meus trechos preferidos era este:

“Com minha mãe descobri que colar calcomania na abertura dos cadernos todo início de ano era algo fantástico. Que passar as tardes de domingo fazendo caligrafia me renderia aplausos pela bela letra. Aos seis anos de idade descobri com ela que poderia escrever poesias e que isso era um talento para poucos. Que só ela sabe fazer risoto de frango ou que reza de mãe resolve todos os problemas, até os mais desesperadores. Também aprendi que ninguém fará por mim o que eu mesma posso fazer e que o amor foge a preconceitos como idade, cor e raça. Aprendi que idade são apenas números e que sempre se é jovem para realizar os sonhos, sejam eles quais forem. Aprendi que a solidão não tem a ver com estar acompanhada de outras pessoas e sim de estar feliz em minha própria companhia.”

Também transcrevi um lindo poema do Drummond “Morrer acontece/ com o que é breve e passa/ sem deixar vestígio./ Mãe, na sua graça, é eternidade./ Por que Deus se lembra/ mistério profundo/ de tirá-la um dia?/ Fosse eu Rei do Mundo,/ baixava uma lei:/ Mãe não morre nunca,/ mãe ficará sempre/ junto de seu filho.”

Depois de exatos 7 meses minha mãe foi embora para um sempre que ainda não sei precisar e esta acabou sendo a última crônica que escrevi para ela e aquele domingo feliz acabou sendo o último domingo de comemoração de seu dia. Algum universo inalcançável se encarregou de abrigá-la. Hoje, posso dizer que aprendi que a vida muda de um momento para outro e que não temos o controle de absolutamente nada, que a morte, depois de um tempo, se torna uma névoa surreal inseparável, que aquela história da música de amar as pessoas como se não houvesse amanhã deve ser levada a sério, que a dor da perda dos que amamos é realmente devastadora. Mesmo assim, em algumas esquinas de felicidade ainda é possível parar para espiar a vida que passa. Às vezes, sonho que sou a Rainha do Mundo, que baixo leis e que me encontro com minha mãe, escondidinho, e que conversamos por horas a fio, como era, num passado não muito distante. Fim!

seja o primeiro a comentar

NOVIDADES

A primeira novidade desta semana é que a lista geral tem nove livros diferentes em relação à semana passada. Alguns velhos conhecidos retornaram, como A cabana (Arqueiro) e Diário de um banana (Vergara e Riba), enquanto outros recém-lançados deram ar de renovação aos mais vendidos. Duas estreias merecem destaque: O melhor de mim (Arqueiro), de Nicholas Sparks, que vendeu 2.341 exemplares,e Sentimentos do mundo, de Carlos Drummond de Andrade (Companhia de Bolso), com 1.356 livros. Por coincidência, Sparks e Drummond mudaram de casa, e os dois títulos marcam a estreia dos autores nas respectivas editoras. O autor americano, dando mostras de que continua dando o melhor de si, alcançou também a primeira colocação na concorrida lista de ficção. O x da questão (Primeira pessoa), de Eike Batista, manteve a liderança por apenas 99 livros de diferença em relação a É tudo tão simples (Agir), de Danuza Leão. Na lista de autoajuda, Ágape (Globo) ficou na primeira colocação, mas vendeu apenas 1.870 exemplares, bem menos do que os 6.720 da semana passada. Na compilação infantojuvenil, nem príncipe, nem banana, ganhou o mais voraz! Jogos vorazes (Rocco) deixou todos os concorrentes para traz vendendo 2.067 cópias. No ranking das editoras, as novidades mantiveram a Sextante em primeiro lugar com o mesmo numero de livros, 17; levaram a Ediouro para o segundo, com oito, e colocaram a Companhia das Letras na quarta posição, com seis livros.

 Fonte: www.publishnews.com.br por Cassia Carrenho

1 comentário

AQUELES QUE JÁ FORAM EMBORA

De tudo o que se pode guardar nessa vida talvez o mais nobre e mágico seja guardar a memória. Organizar o passado, engavetar as idéias que descansam em berços esplêndidos não é tarefa fácil, pois depende de dedicação que vai além dos olhos. Tenho admiração por uma bela guardiã que é a Biblioteca Nacional, provavelmente a maior guardadora da história de todos nós. Entre todos os seus habitantes certamente os livros são os que mantêm o endereço na imortalidade ou enquanto durar o cuidado que se tem com eles. Permanecem lá, em suas casas de estantes, silenciosos, dormentes até que venha alguém e os acordem para uma viagem. São acompanhados por leitores vivos, de carne e osso, e também por aqueles que já não fazem parte deste mundo.

Outro dia, chegando para visitar meu pai, me surpreendi com a reportagem na TV que falava sobre os leitores invisíveis da biblioteca nacional. Segundo os funcionários as histórias peculiares de fantasmas freqüentadores do local vão muito além de lendas assustadoras, são fatos reais, testemunhados. Barulhos estranhos, vozes, sensações são relatadas por quem já ouviu, sentiu e até viu. Certa vez, conta José Augusto, que lá trabalha há mais de 30 anos, estavam ele, uma moça e um rapaz em horário de expediente quando passou uma senhora no meio deles. A moça começou a chorar na mesma hora, o rapaz ficou pálido e José foi atrás da senhora para saber aonde ela ia, mas quando esta dobrou a curva da estante desapareceu. Os dois, o rapaz e a moça, pediram demissão. José também conta que todos os dias quando abre a porta da seção em que faz seu trabalho tem a impressão que o ambiente está lotado, mas quando acende a luz não há ninguém. Os imortais também se rendem a estas histórias e acreditam que os habitantes do além por lá circulam sim e adorariam, como qualquer um de nós, encontrar em algum corredor com Machado de Assis ou com Carlos Drummond de Andrade.

Isso tudo acontece lá no Rio de Janeiro, porém, tenho certeza que também passeiam aqui em Jaraguá, na biblioteca, aqueles que já foram embora, que não podemos ver nem ouvir, mas que sucumbem de saudade dos livros e assim vem passear entre as estantes lotadas. Não tenha medo, não fique preocupado e não hesite em continuar indo a bibliotecas por causa dos fantasmas. Eles estão lá quietinhos, não incomodam e só desejam, como eu e você, apaixonados por livros que somos, serem guardadores de palavras.

seja o primeiro a comentar

O LEITEIRO

A cena visitou minha mente naquele instante duvidoso. Era bem cedo. Ainda na cama, sonolenta, escutava o barulho de palmas lá embaixo. Segundos depois minha vó descia a longa escada de nossa casa, abria a porta, tão fechada quanto entrada de calabouço, com uma enorme tramela na horizontal. Poucas palavras trocadas com um homem, trotes vagarosos de cavalo pela rua, o retorno pela escada e a porta sendo fechada. Quando levantava lá estava a garrafa transparente de leite, ainda morno, em cima da mesa. O homem era o leiteiro que, praticamente todos os dias, trazia o nosso leite. Nunca vi seu rosto e durante anos ele foi apenas uma voz que ouvia pela janela. Certa vez ganhamos leite de graça por um ano por conta de uma aposta. De presente de casamento meus pais ganharam uma leiteira que apitava escandalosamente quando o leite estava quente. O leiteiro, sujeito simples e caipira do interior, quando ouviu isto de minha mãe, não acreditou e disse que nos daria leite de graça por um ano caso comprovassem o feito. Perdeu a aposta! Encantado com a geringonça doméstica ele fez questão de cumprir o que prometeu até o último mês, embora meu pai relutasse em aceitar.

Muito tempo depois, eu, a garota que aguardava a chegada do litro branco e morno para levantar e tomar o café me via ali, mais uma vez, diante da comprida prateleira com tantas opções de tipos no supermercado. Olho para a fila do pão e uma ideia inusitada me ataca: uma vaquinha devidamente instalada dentro do supermercado, as pessoas pegando senha, o Sr. Leiteiro sentado no banquinho tirando o líquido das tetas da vaca, enchendo as garrafas, fazendo a chamada do número e entregando aos clientes. Volto para a realidade, me dá uma saudade do tempo em que a vida, de maneira geral, não era encaixada, em que a falta de opção era algo bom. Desejei abrir os classificados dos jornais e ler anúncios do tipo “Precisa-se de leiteiros com experiência. Paga-se bem. Urgente!” ou então “Abertas inscrições para o curso de leiteiro”. Foi para minha surpresa que encontrei este curso na internet com módulo I e II, estrutura curricular, direito a certificado após passar nas provas, claro, tudo pelo valor de 12 pagamentos de R$ 30,00 mensais. Uma barbada não? É, a vida moderna tem dessas coisas!

Fiz a escolha e segui com um poema de Carlos Drummond lá no canto do pensamento “Então o moço que é leiteiro/ de madrugada com sua lata/ sai correndo e distribuindo/ leite bom para gente ruim”. Isso é assim mesmo, são essas lembranças líquidas que, às vezes, nos transportam, por segundos, para uma lasca fina do passado.

seja o primeiro a comentar

O DIA D

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) fez poesia e prosa, sonetos e aforismos. Arriscou-se nos poemas-piadas e se glorificou nas crônicas jornalísticas. Rabiscou aquilo que via – e aquilo que imaginava também. Semeou o modernismo na Semana de Arte de 1922 e, anos mais tarde, lutou pelo surgimento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Sabia o valor da memória e sentia necessidade de preservá-la. Drummond povoou seus textos com assuntos que vão do político e notório ao mais íntimo e pessoal. Falou de guerras e amores, de pequenas cidades e grandes metrópoles, de amigos perdidos e inimigos conquistados. Tímido, fez confissões eróticas e cuspiu fogo. Sempre com palavras, sem nunca perder a elegância. Por isso – e por muito mais – ele ganha na próxima segunda-feira uma data para ser só sua. No que depender de seus admiradores, a partir deste ano, o 31 de outubro (quando se comemora seu nascimento) passa a ser o Dia D, só de Drummond, e será sempre recheado de eventos em torno de sua obra – algo como acontece na Irlanda com o Bloomsday, dedicado ao escritor James Joyce (1882-1941). Não há em toda a literatura brasileira alguém que tenha experimentado tanto quanto Drummond. Não houve aventura poética, seja no que diz respeito ao estético, ao existencial ou ao linguístico, que Drummond não tenha topado. Ele aprendeu com autores importantíssimos, gente como Manuel Bandeira e Mario de Andrade, e, depois, serviu de ponto de partida para outros poetas importantíssimos, como João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar. Virou figura central e é, sem dúvida, “o” poeta brasileiro.

seja o primeiro a comentar