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NOBEL DE LITERATURA 2011

 O poeta sueco Tomas Tranströmer é o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2011, anunciou hoje a Real Academia Sueca. A Academia destacou a obra de Tranströmer porque “através de suas imagens condensadas e translúcidas ele forneceu acesso transparente à realidade”. Tranströmer nasceu em 1931 e estreou no mercado literário em 1954 com seu livro “17 dikter” (“17 poemas”), traduzido para cerca de 50 idiomas. Recebeu distinções importantes como o Prêmio Bonnier para a Poesia, o Prêmio Neustadt e o Prêmio Petrarch da Alemanha. Entre suas obras traduzidas para o português estão o “O Grande Enigma” e “Pelos vivos e mortos”. Traströmer é o primeiro poeta agraciado com o Nobel desde que a polonesa Wislawa Szymborska ganhou a honraria em 1996. O poeta sueco sucede o escritor peruano Mario Vargas Llosa, quem ganhou o prestigioso prêmio no ano passado. Além de poeta, Tranströmer é psicólogo e se dedica à reabilitação de delinquentes juvenis. O prêmio é dotado de 10 milhões de coroas suecas, o equivalente a R$ 2,7 milhões. Ao anúncio do Nobel de Literatura seguirá nesta sexta-feira a láurea da Paz e na segunda-feira a de Economia.

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LIVROS ABAIXO

As fotos acima são de bibliotecas japonesas pós-terremoto. O site Togetter.com vem reunindo-as, enviadas por voluntários de diversas cidades, e surge um questionamento: por que a preocupação com estantes tombadas e tomos esparramados no chão em meio a uma devastação tão completa, que deveria fazer este parecer o menor dos problemas? As imagens nos permitem ter uma ideia da destruição num ambiente relativamente benigno onde livros não são gente. As bibliotecas funcionariam então como uma poderosa metonímia, tirando sua força menos do que as imagens mostram do que daquilo que sinistramente sugerem. O que se pensa é que num país de povo tão proverbialmente organizado, estudioso e culto, bibliotecas podem ser vistas também como uma metáfora do próprio edifício social – e de sua fragilidade. Num minuto, todo aquele mundo de livros estava perfeitamente ordenado em suas prateleiras por assunto, ordem alfabética etc. No minuto seguinte…bem, o mundo sabe o que aconteceu. Óbvio que o sentimento da perda de livros  não é o mesmo em relação a pessoas ou outros bens, mas saber que as palavras foram massacradas é, no mínimo, desalentador.

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DESERTO FELIZ*

“O real não está nem na saída nem na chegada: ele se impõe pra gente é no meio da travessia”, escreveu Guimarães Rosa. Em outras palavras, a verdadeira viagem não é a chegada e sim o que está pelo caminho. Seja o caminho tortuoso ou retilíneo, com paisagem de praia ou de deserto, de mata fechada ou de gramado, entre um pequeno povoado ou uma metrópole, que só de pensar me deixa me deixa com vontade de andar por ele. Quando criança, na companhia dos meus primos, gostava das brincadeiras que inventávamos enquanto viajávamos acomodados no porta-malas ou no banco traseiro da Belina dourada de meu tio – contava os bois e cavalos à beira da estrada, os caminhões que transitavam no sentido contrário e criávamos palavras com as letras das placas dos veículos. Tudo ficava mais divertido. Na estrada, recordo de nunca ter infernizado meu pai com a fatídica pergunta: “Quanto falta para chegar?”. Memoráveis mesmo eram as idas e vindas a São Bento do Sul e Joinville, de litorina, na companhia da minha mãe. E aquelas estações na serra, no meio da mata…Apreciar o caminho sabendo aonde chegar é o ideal. Que tal então pegar a estrada e sair sem destino? Ou parar num lugar que lhe chamou a atenção pelo nome estampado na placa, a poucas centenas de metros atrás…Parece estranho, mas não há nada a perder, apenas aproveitar o momento e aproveitar o próprio desejo.

Deserto Feliz foi assim. Numa viagem pelo nordeste, no início deste ano, do ônibus, avistei a placa identificando essa pequena localidade, no sul do estado de Alagoas, praticamente no litoral. “Deserto” geralmente é uma palavra que lembra a dureza, a tristeza, a falta d’água, a falta de vida. E “feliz” veio na sequência como algo muito curioso aos meus olhos e pensamento. Fui atraído pelo nome. Não imaginava existir a localidade Deserto Feliz. Desci do ônibus sem saber que direção tomar, os paralelepípedos eram bastante irregulares e as primeiras palavras que soltei na cidade: “Filha da puta!”, por causa de uma topada no dedão que melou de sangue a minha sandália. Era um lugar humilde, com alguns coqueiros. As pessoas nas janelas – as testemunhas dos acontecimentos do tempo. Nelson Rodrigues disse que a televisão matou a janela, a conexão da casa com a vida lá fora. Passando perto dessas janelas ouvia os nativos de um metro e meio de altura falando como se estivessem cuspindo pedras. De outros, ouve-se a fala, mas a boca não se mexe. Muitas vezes é uma dificuldade imensa conseguir entrar na conversa do autêntico nordestino. Pouco se entende. Dialogam pouco, mas o que falam é muito importante. Foi apenas um fim da manhã, uma tarde e uma noite em Deserto Feliz. O que lá me fascinou foi aquele céu azul sem fim. Até assombroso era. Olhando-o, lembrei até de nossos ancestrais, da importância em observar o céu para sua sobrevivência: as plantações são feitas de acordo com a estação das chuvas, a posição do sol colabora na arte d emedir o tempo, e no mar, não longe dali, a pesca é influenciada pela lua. Tudo nesses cantos do nordeste funciona assim. Permaneci numa duna de areia quando anoite caiu. À noite os sentidos ficam mais aguçados. Não sabemos, mas depois que escurece é possível perceber detalhes ignorados durante o dia. O aroma do vento aumenta, a brisa faz os coqueiros balançarem. E alguns cocos caem. Os ruídos tornam-se mais nítidos. Ouço  as crianças nos últimos gritos antes de se recolherem e uma música ao longe, vinda do rádio de um pessoal que faz manutenção na madeira das canoas. A noite é também ocasião para olhar para o céu. Eram poucas as luzes por perto; bom para se deixar hipnotizar pelas luzes das estrelas, na procura do infinito. Por isso que escrevo. Escrever é necessário. Cada vez que mostro as imagens profundas – a mim, belas, quase nunca bonitinhas, leio ou comento para alguém -, sinto de novo os aromas, os sons, os ruídos, as conversas com as pessoas, o esforço apra chegar a determinado lugar, o caminho tomado errado e, principalmente, as diferenças de valores. Porém, só o que tenho a dizer: o melhor de tudo isso é a viagem e não a chegada…

*Crônica do livro Deserto Feliz do escritor Charles Zimmermann que está dando a volta ao mundo de bicicleta.

Charles mandou um e-mail parabenizando o blog Caligrafia!

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