PRESOS, RESENHAS E DOSTOIÉVSKI
O governo quer que os presos se tornem leitores vorazes e quer também que façam resenhas dos livros lidos. Um juiz federal irá avaliar a resenha e, se for boa, será abatido nos dias da pena a cumprir. Este mesmo governo investiu alguns milhares de reais para a compra dos livros que são clássicos da literatura. Para finalizar a notícia que li sábado, este “projeto de leitura” será implantado em prisões de segurança máxima, aquelas para onde vão apenas os bandidos mais perigosos do país. O que eu penso de tudo isso? Sinceramente, não sei, estou confusa, são muitas opiniões e dúvidas passando pela minha mente.
Para começo de conversa um juiz, com tanto trabalho a fazer, terá tempo para corrigir as resenhas literárias de Fernandinho Beira Mar? Ele é um dos presos que mais lê, um autêntico leitor voraz. Aliás, os presos sabem o que é uma resenha, como escrevê-la, o que caracteriza este tipo de texto? Bom, talvez os Nardelli ou a Suzane Von Richthofen, que cursavam curso superior saibam, mas que injustiça a minha! É válido, os livros mudam vidas, almas, reformulam, fazem dos seres pessoas de bem dispostas a buscarem o melhor para si e para a sociedade. O problema é que tem uma “pulga atrás da minha orelha” – o governo não deveria dar livros de literatura clássica para crianças e jovens? Não são eles o futuro de nosso país? Não deveria estar gastando dinheiro para encher as prateleiras das bibliotecas desfalcadas, principalmente de cidades do interior, que dependem de doações da comunidade, se quiserem oferecer a seus alunos literatura de qualidade? Por que nós se quisermos ler Crime e Castigo, de Dostoiévski, temos que comprá-lo enquanto que o Fernandinho e o Linderberg o tem fácil e de graça?
Ah, eu adoraria que o governo me desse uma biblioteca, ou desse a você que é cidadão de bem, que trabalha, que paga imposto, que nunca matou, roubou, estuprou, esfaqueou os pais ou jogou a filha pela janela, como eu adoraria! Que nada, é uma ótima iniciativa, será bom para eles, fiquemos contentes. Os que têm pena para cumprir de 30, 40 ou 50 anos e aderirem, lerão muito, farão muitas resenhas, e quem sabe, um dia, quando saírem, algum deles se torne escritor, escreva um best seller, e fique famoso, e quem sabe eu esteja caminhando por uma grande feira literária e uma fila quilométrica chame minha atenção e eu perguntarei para alguém: “Esta fila é para que?” “É para pegar autógrafo do livro do Fernandinho Beira Mar”. E quem sabe a Suzane e os Cravinhos ministrarão oficinas literárias, tudo pode acontecer porque aqui é Brasil, um país de todos!
Querido governo, se algum dia você ler esta crônica não me queira mal, não fique bravo, não me critique porque eu sou apenas uma leitora voraz, escritora, latino-americana, que pensou alto, que quis desabafar com seus leitores.