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O CRONISTA ANTUNES

Tudo começou como um exercício estilístico – em troca de um ínfimo soldo, o escritor António Lobo Antunes, um dos mais festejados da atualidade, começou a escrever crônicas dominicais para a imprensa portuguesa. “Depois de um tempo, quando já não estava mais disposto a continuar, pedi um valor bem mais alto, acreditando interromper a colaboração”, contou ele. “Para minha surpresa, eles aceitaram e tive de manter a rotina.” Nada surpreendente, no final das contas, esse interesse dos editores. Conhecido por levar ao extremo a subversão da estrutura narrativa – cada capítulo de seus romances se compõe de frases que vão criando melodias e ritmos insuspeitos que conduzem a uma leitura vertiginosa -, Lobo Antunes, em suas crônicas, volta-se para a intimidade, navegando entre saudosas lembranças familiares e observações de seu cotidiano. É quase como outra faceta do mesmo escritor, menos experimental mas igualmente contagiante. Basta conferir as 60 crônicas que compõem “As Coisas da Vida”, recentemente lançado pela Alfaguara, selo da editora Objetiva. Ali estão textos selecionados de dois volumes que já circulam em Portugal, “Livro de Crônicas” e “Segundo Livro de Crônicas”, que, por sua vez, reúnem material publicado no jornal Público e na revista Visão. Uma adorável viagem em que Lobo Antunes navega entre experiências pessoais, quando trata do tempo em que trabalhou como médico na guerra em Angola, de amigos que cruzaram sua vida e, principalmente, dos momentos passados em Belém do Pará, onde morava o avô e um bando de tias. Engana-se, porém, quem acredita que o escritor sente prazer nesse tipo de escrita. “Quando não estou escrevendo um livro, não tem problema. Mas, se estou trabalhando em algo, sou obrigado a sair do ritmo do romance para o da crônica, que é bem diferente. Também não posso ser muito profundo, pois o gênero não permite.”

Não se trata de descaso – íntimo conhecedor da crônica, Lobo Antunes resigna-se a louvar aquela que, em seu parecer, é a mais perfeita: a brasileira. “Se há algum país que tem de se orgulhar de seus cronistas, é o Brasil. E não falo apenas de Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino – há um escritor que considero importante salientar seu trabalho: Paulo Mendes Campos.” Da mesma forma que se rende à técnica seca e precisa do verso de João Cabral de Melo Neto, o escritor português maravilha-se com os textos do colega mineiro, que morreu em 1991. Esse detalhe é essencial no exercício do ofício, segundo Lobo Antunes. Para ele, a crônica é uma intervenção cívica e cita Carlos Drummond como exemplo. “Apesar de não gostar tanto de sua prosa como amo a poesia, há sempre um sentido ético em seus textos. Sempre aprendo muito quando releio o Drummond cronista.” Apesar de bom leitor, Lobo Antunes confessa-se um novato na escrita de crônicas. Ele conta que nunca tinha escrito uma até surgir o convite da imprensa lisboeta. O assunto era o que mais lhe preocupava. “Quando comecei, pensava em temas comuns pois seria dirigido ao leitor de fim de semana. Depois, pensei em usá-las como um contraponto dos livros, algo como anotações feitas às margens dos escritos. É prazeroso o trabalho, mas a crônica condiciona o número de palavras e não pode ser profunda.”

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FEIRA DO LIVRO DE LISBOA

A Feira do Livro de Lisboa começou ontem e os livros tomam conta do Parque Eduardo VII. Os lisboetas vão poder comprar livros mais baratos e conhecer alguns autores até dia 15 de Maio. A Feira do Livro é um dos eventos preferidos dos lisboetas e, como habitualmente, dá-se lugar de relevo aos seus autores e outros intervenientes, fazendo deste espaço um local privilegiado para todos aqueles que procuram incrementar os seus hábitos de leitura e trocar impressões com os escritores. Outra das grandes vantagens da Feira do Livro são os descontos feitos pelas editoras em inúmeros livros. A iniciativa de “Happy Hour”, altura do dia em que livros selecionados são abrangidos por descontos de 50% ou mais, está prevista nos regulamentos para este ano, embora a adesão por parte das editoras seja voluntária. Também tem muita animação cultural. concertos, debates e iniciativas para os mais novos fazem parte da programação. O Grupo LeYa já desvendou alguns dos seus planos para o evento: jazz ao final da tarde às quintas e sextas-feiras e a “Hora do Editor”, todas as quintas-feiras entre as 19h00 e as 20h00. Inês Pedrosa, Lídia Jorge e Patrícia Reis foram as primeiras autoras a dar autógrafos, logo no dia da abertura. De segunda a sexta-feira a abertura será às 12h30 e ao sábado e ao domingo será às 11h00. Já o encerramento será às 23h00, de domingo a quinta-feira, e à meia-noite à sexta-feira e sábado.

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MICHAEL CUNNINGHAM

O romancista norte-americano Michael Cunningham trabalha de manhã, porque gosta de partir dos sonhos para a escrita, e defende que as suas personagens procuram a beleza porque é o que toda a humanidade faz.  Foi o que disse perante o auditório cheio da Fnac Chiado na segunda-feira à noite. Inquirido sobre como é o seu ambiente de trabalho, Michael Cunningham – que se encontra em Lisboa para apresentar o mais recente romance, “Ao Cair da Noite”, publicado em Portugal pela Gradiva – respondeu, com humor: “Sou quase grotescamente disciplinado, e isso não é uma virtude. Venho de uma família de enorme disciplina. Tenho tentado educar-me para ser menos disciplinado”.

“Escrevo de manhã, porque gosto de partir dos sonhos para a escrita, e nunca à noite. Não escrevo coisas em guardanapos de papel e nunca vou para uma festa pensar ‘oh, isto era muito útil para o meu romance’”, explicou. Sobre a beleza, um valor que as suas personagens procuram, o escritor, que venceu com o anterior romance, As Horas o Prémio Pulitzer 1999, afirmou que “o trabalho da escrita é também o da procura da beleza” e concluiu com uma pergunta: “Não é isso que todos procuramos?”.

“Sou um obcecado por livros, um grande leitor, e para mim, a experiência de ler Walt Whitman ou Virginia Woolf pela primeira vez foi tão intensa como a primeira vez que me apaixonei”, observou.

Michael Cunningham, de 58 anos, não começou a escrever e a publicar muito cedo, porque — como descreveu — gastou a sua década dos 20 em “amor e outras drogas” e, de repente, quando chegou aos 30, acordou e achou que estava na altura de ter uma carreira, o que também não se revelou muito fácil, ao início, tendo algumas editoras rejeitado os seus primeiros escritos.

“Pronto, eu não sou só demasiado disciplinado, sou também demasiado confiante e, por isso, pensava ‘vão-se lixar por não publicarem esta história!’”, admitiu, provocando gargalhadas na audiência.

Ainda considerou a hipótese de optar “pelo ensino ou pelo bailado”, mas finalmente um dos seus contos foi publicado na prestigiada revista The New Yorker e, a partir daí, “as coisas começaram a acontecer”. O escritor nova-iorquino falou ainda da sua admiração pelo actual Presidente norte-americano, Barack Obama, embora seja crítico em relação a alguns aspectos da sua administração – como Guantanamo ou o direito dos homossexuais ao casamento, uma causa pela qual se tem batido, como membro da comunidade gay. Outro aspecto abordado no encontro foi o papel da doença na sua obra, uma característica que justificou assim: “Como um gay que sobreviveu à epidemia de sida, sinto-me como se tivesse estado na guerra. E como é que poderia não escrever sobre isso? Faz parte da minha vivência, é natural que se reflicta no meu trabalho”.

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LISBOA EM PESSOA

A cidade de Lisboa sempre teve um morador e admirador ilustre de nós brasileiros, o poeta Fernando Pessoa. A partir desse fato o jornalista João Correia Filho teve a idéia de fazer um guia turístico da capital portuguesa a partir das impressões e vivências do escritor. Deu certo e o resultado é um livro de 376 páginas. João iniciou as pesquisas com outro livro, Lisboa, escrito por Pessoa em 1925 e que dá dicas para turistas. Este permaneceu inédito por décadas, sendo editado pela primeira vez só em 1992. A obra resulta do profundo conhecimento que o poeta tinha de sua cidade natal, onde viveu a maior parte de sua vida. Tamanha intimidade é consequência do hábito de caminhar demoradamente pelas ruas de Lisboa onde ele dá dicas conduzindo o leitor a locais célebres como a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerônimos e o Castelo de São Jorge – para citar apenas alguns de numa detalhada lista de mais de cem lugares a serem descobertos. O livro atual, Lisboa em Pessoa, inclui também pontos de visitação relacionados à vida do poeta lisboeta, como o café ‘A Brasileira’, do qual foi frequentador assíduo, e a Casa Fernando Pessoa, em que viveu os últimos 15 anos de sua vida e que hoje sedia um centro cultural. Enriquecendo as referências e diversificando os olhares sobre a cidade, textos de outros autores portugueses completam o guia – tanto nomes consagrados como Camões, Eça de Queiroz e José Saramago, como novos expoentes da literatura lusa, como Batista-Bastos, Hélia Correia e Inês Pedrosa. Isso sem contar o farto material fotográfico, que também explora a cidade sob um olhar mais poético. Detalha tanto as atrações históricas, quase obrigatórias, como as mais recentes, como o Parque das Nações, inaugurado em 2008, e o Museu do Design e da Moda, de 2009. Tudo isso sem deixar de fornecer informações práticas necessárias para o viajante, sejam eles grandes amantes da literatura e do poeta Fernando Pessoa, ou àqueles que têm interesse em conhecer a cidade pelo olhar de um de seus mais profundos conhecedor.  Perfeito para quem quer conhecer a cidade!

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