VIRGINIA
A Medida da Vida, que chega às livrarias brasileiras trata dos últimos anos da escritora inglesa. Esses “last years”, embora ao longo do livro o autor também toque nos anos de formação da biografada, na verdade se referem à última década de Virginia. Numa verdadeira tour de force, Herbert Marder vai fundo não só na vida, mas principalmente na obra da autora, mormente no que ela escreveu de 1931, ano da publicação de As Ondas, até 1941, quando ela se suicida, pouco depois de terminar Entre os Atos. No prelúdio da biografia, Marder – nascido em Viena e criado em Nova York – conta que ainda jovem, antes de ingressar na faculdade, já devorava as obras de Virginia Woolf. Ao entrar na Columbia University seu interesse por Woolf continuou firme. Naquele começo da década de 1960, a reputação da escritora estava em baixa, mas já destinada a reerguer-se. Estranho é até hoje não ter saído no Brasil a mais completa biografia daquela que é considerada a maior ficcionista do século passado, escrita, por Hermione Lee (Chatto & Windus, 1996) e nem Leonard Woolf – A Life, por Victoria Glendinning (Simon & Schuster, 2006), duas obras seminais que devem caminhar lado a lado para a melhor compreensão da vida do casal e, no caso de Leonard, sua importância, na vida e carreira da mulher, importância quase sempre negligenciada por estudiosos. Sem Leonard Woolf não haveria a Virginia Woolf que o mundo conhece. Portanto, é importantíssimo conhecer o livro de Victoria Glendinning, a primeira a se prestar, magistralmente, ao esforço. Merece tradução. O último romance de Virginia Woolf, Entre os Atos, foi publicado postumamente, quatro meses depois de seu suicídio, em 28 de março de 1941. Virginia estava com 59 anos, dois meses e dois dias quando se afogou no Rio Ouse, meia milha da Monk’s House, sua residência campestre em Rodmell, no condado de Sussex (distante pouco mais de uma hora de trem de Londres). Deixara em casa cartas para o marido Leonard e para a irmã Vanessa (que morava perto, na fazenda Charleston). Nas cartas, ela escreveu ter certeza de estar ficando louca novamente. E desta vez sem esperança de cura. Para Leonardo, anotou: “Você foi absolutamente paciente comigo e incrivelmente bom. Se alguém pudesse me salvar teria sido você”. E termina: “Não creio que duas pessoas tenham sido mais felizes do que nós fomos”.
De fato, Virginia, que sempre temera a reação dos amigos e da crítica ao lançar novas obras, com Entre os Atos sentia-se mais apreensiva que nunca. Contudo, todos os que bem a conheciam tinham a certeza de que, como ela havia superado as outras crises, com tratamento e repouso, agora, sob os cuidados da médica e amiga Octavia Wilberforce acabaria superando mais essa. Todos acreditavam nisso, menos Virginia. Mesmo com a cabeça explodindo de ideias e projetos, sentia estar perdendo a energia criativa – e que seu tempo havia passado. Em A Medida da Vida, Herbert Marder publica um apêndice com as cartas da dra. Octavia a uma amiga sobre seu tratamento da crise final de Virginia. Na última, de 19 de abril de 1941, escreveu: “Na noite de quinta-feira eu sonhei nitidamente que Virginia tinha reaparecido, viva. Foi enorme a minha decepção quando acordei e vi que era um sonho”.