CHRISTA WOLF
A escritora Christa Wolf, considerada uma das maiores romancistas da então República Democrática Alemã, faleceu quinta-feira passada num hospital de Berlim aos 82 anos, depois de uma longa enfermidade. Nascida em 1929 na Prússia Oriental (hoje território polonês), ela contribuiu para o nascimento de uma literatura própria da extinta RDA, com seus primeiros livros e o conto Der geteilte Himmel (Céu dividido), de 1963, onde o sonho de uma nova sociedade se misturava ao de um desabrochar individual. Na RDA (República Democrática Alemã), durante um tempo, teve carreira consolidada como personalidade aliada ao socialismo. Em 1965, no entanto, quando ela se posicionou contra a censura e a homogeneização da literatura, numa sessão do SED, o partido único da então Alemanha Oriental, sua carreira entrou em declínio no país, com seus livros tornando-se raros nas livrarias da RDA. A fama no lado ocidental foi se consolidando. Com Kindheitsmuster (Modelo de uma infância), publicado em 1976, a escritora transformou-se em referência entre os clássicos da literatura alemã dos dois lados do Muro. O presidente da República alemã, Christian Wulff, disse que os livros de Christa Wolf emocionaram e encheram de entusiasmo o país. Para leitores e leitoras, Christa Wolf era mais que uma romancista. Ela acreditava ainda, à sua maneira, sempre muito atual, no bem e na capacidade de o ser humano de melhorar. A escritora recebeu, em 1980, o prêmio Georg-Büchner, a maior distinção literária alemã, e por duas vezes o “prêmio nacional da RDA”. Em 1990, recebeu o título de ‘Officier des Arts et des Lettres’ oficial das Artes e das Letras, do então ministro francês da Cultura, Jack Lang. Nos anos 90, as revelações da imprensa sobre seus contatos com a Stasi, a polícia secreta da RDA, na década de 1960, arranharam sua imagem, levando-a a um exílio temporário nos Estados Unidos. Amiga de Günter Grass, teve duas filhas do casamento com o escritor Gerhard Wolf. A vida da família Jordan, em Modelo de uma Infância, passada durante o nazismo e a Segunda Guerra Mundial, foi a história da própria Christa Wolf, que, como sua heroína Nelly, nasceu em Landsberg/Warthe, em 1929. Como nenhuma outra escritora, abriu espaço, através da linguagem, para uma nova consciência. O movimento feminista dos anos 1970 e 1980 encontrou em seus escritos material para a busca da própria identidade. Nas obras da escritora, as mulheres estão sempre no centro das atenções: mulheres que se sentem estranhas, não ajustadas num mundo masculino. As personagens literárias de Christa T. são mulheres míticas como Cassandra ou Medeia.