Num contraposto difícil de entender, por outro lado aceitável Ernest adorava a vida e as bem aventuranças proporcionadas pela mesma vivendo-a de forma intensa ao mesmo tempo que a morte é companheira constante em sua escrita e nas conversas registradas ao longo da carreira. Talvez pelo fato de seu pai ter cometido o suicídio por motivos de saúde e financeiros. Para piorar, pouco depois da tragédia ele recebe pelo correio, enviada pela mãe, a arma com a qual seu pai deu fim à vida. Tal acontecimento teve influência direta na vida do escritor que, a partir de certo momento da vida, começa a apresentar comportamento instável e difícil. O desfecho da história familiar não poderia ser pior, pois, aos 61 anos, com depressão e perda de memória, Ernest apanhou um dos fuzis de caça que possuía e disparou contra sua cabeça.
As conclusões e anotações a respeito do tema são reveladoras. “O mundo é um lugar agradável e pelo qual vale a pena lutar, e eu odeio ter de deixá-lo”. Tal afirmação prova que o gosto por viver fazia parte de sua personalidade sendo que eventos não desejados fizeram-no tomar atitudes impensadas. Outra frase sua “Perguntaram-me se há alguma coisa de que eu me arrependerei antes de morrer. O arrependimento é luxo a que se permitem aqueles que pensam que terão mais de uma vida”. Isso explica a boa vida que levava e o dinheiro que gastava com viagens, caçadas, explorações, mulheres. Possivelmente não teve arrependimentos na hora da despedida desta vida. Não acreditava em vida após a morte, ressurreição e outras teorias do gênero e provou isto dizendo que, se existisse vida após a morte, ela deveria ser no Hotel Paris Ritz com todas as suas regalias como jantares inesquecíveis, camas enormes, travesseiros de penas de ganso e uma bela companheira.
Poderia escrever muito sobre Hemingway e certamente assunto não faltaria. Como leitora de suas obras, admiradora e escrevinhadora de palavras tive a ideia de escrever esta trilogia quando comprei o tal livro de que falei no início da primeira crônica. Realmente, desde que se firmou como escritor reconhecido e premiado, após inúmeras dificuldades financeiras, ele sempre levou uma boa vida amando suas mulheres e seus livros (a propósito, gostava de ficar em pé quando escrevia na máquina Olivetti e raramente sentado, assim, dizia ele, com as plantas dos pés no chão a escrita fluía melhor). Para finalizar posso dizer que é uma pena que Ernest Hemingway não esteja mais neste mundo.
Nesta segunda crônica da trilogia de Hemingway, sobre o livro que achei perto da prateleira de sabão em pó num mercado, conto sobre sua amizade e convivência com outros dois grandes escritores, Scott Fitzgerald e James Joyce. Excêntrico e beberrão, Scott protagonizou grandes “barracos” públicos com sua mulher Zelda, cujo comportamento impulsivo e escandaloso a tornava uma mulher desequilibrada aos olhos alheios. A relação dos amigos Fitzgerald e Hemingway era conturbada porque Scott não suportava os conselhos sinceros de Ernest, isto é, a verdade nua e crua. Certa vez, Ernest aconselhou o colega que se encontrava à beira da falência e do alcoolismo: “Você deve acolher sua própria tragédia, pois escritores sérios têm de sofrer de maneira realmente penosa antes que possam escrever seriamente” e mais “Você deve extirpar a dor de maneira honesta. A essa altura da vida, ferido como está, pode escrever duas vezes melhor, com álcool ou sem álcool. Com ou sem Zelda”. Intransigente e bravo Scott interpretou mal, não aceitou os conselhos e os dois brigaram de forma séria.
A segunda dupla, Ernest e James se conheceram em 1921 e conviveram até a morte (de Joyce). Segundo ele, Joyce era um homem bom, porém, muito desagradável, orgulhoso e extremamente rude com os amigos, principalmente em conversas que envolvessem o ato de escrever. Apesar de encrenqueiro tinha seus medos, um deles era o de relâmpagos. Assim como Scott, gostava de beber, tomava porres homéricos e era levado para casa geralmente por Hemingway. Nos bares de Paris frequentes vezes gerou brigas por suas declarações ríspidas com pessoas as quais alegava serem imbecis.
Três amigos, três escritores que atravessaram os séculos com suas obras literárias e que expunham uns aos outros suas fraquezas de uma forma tão humana que fica difícil relacionar o que escreveram com as características aqui descritas. Alguém diria que quem escreveu Ulysses era rude e briguento? E quem desconfiaria que o Prêmio Nobel Hemingway denominaria a Fama que os livros lhe trouxeram de prostituta, cuja irmã mais nova é a Morte?
Depois de saber de tudo isso só me restou juntar na prateleira de minha modesta biblioteca três livros dos três mosqueteiros. Em tamanho Ulysses devora os contos de Fitzgerald e O velho e o mar, porém, este é só um detalhe estético, pois conforme afirmou Hemingway “Não há amigo que seja mais fiel do que um livro”.
Geralmente vamos ao tetro quando queremos assistir uma peça, mas algo de diferente acontece em São Paulo a partir do momento que uma noiva perambula pelo centro da cidade. Já é noite, e seu vestido branco chama atenção dos passantes. Atrás dela, um grupo de pessoas segue em cortejo. Percorrem um quarteirão inteiro. Param para escutar histórias da moça. Continuam a andar. Súbito, estancam. Através de uma portinhola, adentram, entre curiosos e ressabiados, em um antigo casarão. A peça em questão é “Antes de Partir”, que abre temporada no Instituto Cultural Capobianco. É no meio da rua, à porta de entrada do teatro, que a diretora francesa Léa Dant transforma os espectadores em cúmplices de uma jornada. O teatro aqui se torna uma ferramenta, quase um pretexto para viver um encontro entre seres humanos no nível íntimo. Léa é diretora artística do Théâtre du Voyage Interieur, em Paris,e veio duas vezes a São Paulo para realizar “Antes de Partir”. Toda a dramaturgia surgiu a partir de proposições dos próprios intérpretes, que se debruçaram sobre um mote comum: se cada um deles estivesse vivendo seus últimos momentos, o que consideraria mais importante? Qual episódio teria sido o mais marcante e definidor de sua experiência como ser humano? Assim, ao longo da noite, perambula-se pelo teatro para acompanhar as trajetórias de seis personagens. Conscientes da finitude próxima, eles compartilham seus questionamentos e angústias. Em troca, pedem por segredos e memórias de quem os assiste. Oferecem vinho. E tratam de, gradativamente, instaurar a fragilidade como esteio. Não é a primeira vez que Léa Dant vem ao País. Em 2003, encenou por aqui “Viagem em Terra Interior”, trabalho que já dava sinais do lugar de destaque que a diretora reserva aos espectadores. Vendados, eles eram levados a estabelecer uma relação de confiança e dependência com os atores que os guiavam. Guiado por essa noção, “Antes de Partir” se propõe, sobretudo como um ritual. Não é um espetáculo tradicional onde tudo acontece na hora certa, num palco distante e separado do público.
Rua Willy Bartel, muito prazer! O endereço onde moro já se tornou quase um sobrenome ou talvez um nome porque, embora sem saber a história da rua, repito-o incontáveis vezes durante a semana, durante o mês, geralmente para preencher cadastro ou algo parecido, inerente às burocracias da vida cotidiana. Sempre tenho que soletrar, é como se a Rua Willy, de certa forma, me pertencesse. Endereços são os cenários reais que acomodam diversos personagens com seus emaranhados papéis ao longo da vida e, partindo desse prisma, não há como negar que as ruas nas quais moramos do nascimento até a morte fazem parte de nossa história, ficam enraizadas no passado e marcam pela importância que tiveram em momentos específicos. Passei os primeiros anos de vida na Lauro Muller, 261 e toda vez que passo por ela vem um filme na mente juntamente com as pessoas que lá viveram. Era uma rua familiar com uma energia típica do interior, com alguns moradores silenciosos, outros barulhentos e tinha até os misteriosos, dos quais pouco se sabe até hoje. Como escritora, tenho certeza que minha rua da infância daria um livro. Famosas, esquecidas, comuns, polêmicas, históricas e com outras denominações elas pulsam nos corpos das cidades como veias expondo vertentes geográficas. O homem, desde a antiguidade, começou a denominar os lugares por onde passava para facilitar sua própria localização e obter referências seguras em relação aos locais pelos quais passava ou residia. A geografia e a literatura se unem numa das inúmeras e famosas ruas pelo mundo afora. É a Vaneau, em Paris, por ter sido endereço de célebres escritores. Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, morou numa mansão de № 24 nesta rua no ano de 1931. Quase um século antes, em 1843, o filósofo alemão Karl Marx morou no № 38 em um apartamento, onde, aliás, aconteciam as reuniões com o revolucionário Friedrich Engels. Juntos, cinco anos depois, escreveriam o Manifesto Comunista. Seguindo pela rua Vaneau moraram também, no № 1 – BIS, os escritores Emmanuel Bove e André Gide, este último autor de Se o Grão Não Morre, livro publicado em 1926. Algumas permanecem vivas eternamente, outras morrem mesmo existindo, porém, um fato é certo: as ruas que cruzamos se fundem em recordações marcantes.
Hoje, dia 08 de fevereiro nascia em Nantes, na França, um escritor que previu a evolução tecnológica em suas obras de ficção na literatura. Júlio Verne escreveu obras de aventura e ficção científica que influenciaram gerações como “Cinco Semanas em um Balão” (1863), “Viagem ao Centro da Terra” (1864), “Da Terra à Lua” (1865), “Vinte Mil Léguas Submarinas” (1869) e “A Volta ao Mundo em 80 Dias” (1872). Foi um dos primeiros escritores a praticar uma literatura na linha da moderna ficção científica. Verne previu a televisão, o helicóptero, o cinema falado, a iluminação a néon, o ar condicionado, os arranha-céus, os mísseis teleguiados, os tanques de guerra, os veículos anfíbios, o avião, a caça submarina, o aproveitamento da luz e da água do mar para gerar energia, o uso de gases como armas químicas. Jules Gabriel Verne Allotte começou sua carreira literária após seu pai, Pierre Verne, desiludir-se com a sua trajetória de advogado. Tentou ingressar no teatro e escrever poemas e peças, e também tentou a sorte com a música, sem êxito. Só descobriu seu Continue lendo »