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O LEITEIRO

A cena visitou minha mente naquele instante duvidoso. Era bem cedo. Ainda na cama, sonolenta, escutava o barulho de palmas lá embaixo. Segundos depois minha vó descia a longa escada de nossa casa, abria a porta, tão fechada quanto entrada de calabouço, com uma enorme tramela na horizontal. Poucas palavras trocadas com um homem, trotes vagarosos de cavalo pela rua, o retorno pela escada e a porta sendo fechada. Quando levantava lá estava a garrafa transparente de leite, ainda morno, em cima da mesa. O homem era o leiteiro que, praticamente todos os dias, trazia o nosso leite. Nunca vi seu rosto e durante anos ele foi apenas uma voz que ouvia pela janela. Certa vez ganhamos leite de graça por um ano por conta de uma aposta. De presente de casamento meus pais ganharam uma leiteira que apitava escandalosamente quando o leite estava quente. O leiteiro, sujeito simples e caipira do interior, quando ouviu isto de minha mãe, não acreditou e disse que nos daria leite de graça por um ano caso comprovassem o feito. Perdeu a aposta! Encantado com a geringonça doméstica ele fez questão de cumprir o que prometeu até o último mês, embora meu pai relutasse em aceitar.

Muito tempo depois, eu, a garota que aguardava a chegada do litro branco e morno para levantar e tomar o café me via ali, mais uma vez, diante da comprida prateleira com tantas opções de tipos no supermercado. Olho para a fila do pão e uma ideia inusitada me ataca: uma vaquinha devidamente instalada dentro do supermercado, as pessoas pegando senha, o Sr. Leiteiro sentado no banquinho tirando o líquido das tetas da vaca, enchendo as garrafas, fazendo a chamada do número e entregando aos clientes. Volto para a realidade, me dá uma saudade do tempo em que a vida, de maneira geral, não era encaixada, em que a falta de opção era algo bom. Desejei abrir os classificados dos jornais e ler anúncios do tipo “Precisa-se de leiteiros com experiência. Paga-se bem. Urgente!” ou então “Abertas inscrições para o curso de leiteiro”. Foi para minha surpresa que encontrei este curso na internet com módulo I e II, estrutura curricular, direito a certificado após passar nas provas, claro, tudo pelo valor de 12 pagamentos de R$ 30,00 mensais. Uma barbada não? É, a vida moderna tem dessas coisas!

Fiz a escolha e segui com um poema de Carlos Drummond lá no canto do pensamento “Então o moço que é leiteiro/ de madrugada com sua lata/ sai correndo e distribuindo/ leite bom para gente ruim”. Isso é assim mesmo, são essas lembranças líquidas que, às vezes, nos transportam, por segundos, para uma lasca fina do passado.

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BIOGRAFIA

O livro  “Salinger: Uma Vida”, de Kenneth Slawenski, biografia de J. D. Salinger tem generosas 416 páginas e busca jogar um pouco de luz sobre a figura do escritor (1919-2010). Começou a ser assediado pelo sucesso avassalador de seu livro “O Apanhador no Campo de Centeio”, porém, optou por uma vida reclusa, por nunca conceder entrevistas nem aparecer na mídia, e se tornou famoso por isso. Morto em 27 de janeiro do ano passado, com apenas três outros livros publicados em toda a sua carreira, “Franny e Zooey”, “Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira & Seymour, Uma Apresentação” e “Nove Estórias”, o autor tornou-se uma lenda envolta em especulações. Em “Salinger: Uma Vida”, o autor Slawenski desvenda a personalidade do escritor ao, entre outras coisas, reunir fatos sobre sua juventude privilegiada, já habitada por rumores e mal-entendidos. O biógrafo também mostra como o recluso criador entrou na alta sociedade americana e como foi impactado pela Segunda Guerra Mundial. O livro traz ainda informações sobre alguns dos amores vividos pelo autor, suas criações, os triunfos que conquistou com a literatura e as desavenças em torno de sua carreira. O volume está em pré-venda na Livraria da Folha e tem lançamento previsto para hoje, 17 de junho.

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CHEIROS

Durante toda a nossa vida, na eterna sensação e descoberta dos sentidos, talvez um seja o mais interessante e misterioso: o do cheiro. Todos os dias, durante a maior parte do tempo, mesmo sem perceber, sentimos cheiros de todos os tipos, sejam agradáveis ou não. Doces e leves como algodão doce são os cheiros da infância, aqueles que trazem saudade, como o bolo da avó assando no forno numa tarde de sexta-feira ou do calor do fogo que vinha do velho fogão a lenha enquanto as brasas crepitavam em uníssono.

Ternos e selvagens são os cheiros, em um dia qualquer, de lençóis recém lavados sacudidos com força pelo vento uivante ou o cheiro do sol impregnado sobre cobertores e edredons que descansam preguiçosamente nas janelas de casas pela manhã.

Amedrontadores são os cheiros fortes sentidos durante uma tempestade, o cheiro da água da chuva caindo com intensidade, lavando chãos e vidas.

Misteriosos são os cheiros da noite que escondem estrelas e segredos por detrás de nevoeiros enquanto a lua se mostra nua e sem pudor.

Inexplicáveis são os cheiros da saudade, que pode ser de muitas coisas, de um passado que não volta mais ou de um futuro que ainda não foi vivido.

Apaixonante e excitante são os cheiros que banham corpos e almas após uma tórrida noite de amor.

Acolhedor é o cheiro do café feito no bule bem cedinho enquanto a geada da manhã escorre pelos vidros transparentes como sonhos de alguém que ama e não pode esperar pela lentidão da indecisão e da incerteza.

Fétido, insuportável é cheiro do lixo, nunca devemos deixar lixo se acumular em nossa vida, talvez um dia ele cheire tão mal que poderemos não suportar.

Silencioso e lindo é o cheiro da pessoa amada que sempre fica em nosso nariz, em nossa lembrança, aconteça o que acontecer o cheiro estará presente, como tatuagem definitiva.

Eles são infinitos e, compreensíveis ou não, fazem parte de nossa existência, ajudam a construir, a relembrar. Os cheiros contribuem para nossa história, para montar o quebra cabeça de lembranças longínquas ou de pouco tempo atrás, de tempos que deixam saudades ou que simplesmente não necessitam serem lembrados. Cada vez que sentirmos cheiro de algo que já passou sempre viveremos novamente aquele momento e o prazer de segundos pode valer uma vida inteira.

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PRESENTE E PASSADO SE MISTURAM NA BIENAL EM SP

Esquecer as páginas de papel e adotar o livro digital. Isso é possível? É a pergunta que circula pelos corredores da Bienal em SP.  Não é só para ler, mas interagir com as histórias. A criançada se diverte com a menina do nariz arrebitado escrita por Monteiro Lobato em 1.920. Tocando as telas, aparecem vários personagens marchando. Pequenos grilos vestidos de soldados. Não se trata de um jogo para as crianças, mas uma nova maneira de mostrar que a história de Monteiro Lobato está mais viva do que nunca. Que tal depois de ler o livro, brincar no computador? Lá ele é usado para jogar também.

Na Bienal também dá para voltar no tempo. É possível ver uma pedra de mármore de 1905. Ela pesa cem quilos e era usada para imprimir cores nos livros.

O primeiro dicionário eletrônico levava uma hora para carregar no computador. Hoje em dia tem cd pequeno, pendrive e tudo o mais. E foi numa máquina de escrever portátil que Monteiro Lobato escreveu várias obras. Quem passeia pela Bienal vai ver as anotações a lápis que o escritor fez para alterar textos. No lugar onde circulam dom Quixote, Sherlock Holmes, Robin Hood e tantos outros personagens da ficção, passado e presente convivem muito bem.

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