Tag poeta

O DIA D

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) fez poesia e prosa, sonetos e aforismos. Arriscou-se nos poemas-piadas e se glorificou nas crônicas jornalísticas. Rabiscou aquilo que via – e aquilo que imaginava também. Semeou o modernismo na Semana de Arte de 1922 e, anos mais tarde, lutou pelo surgimento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Sabia o valor da memória e sentia necessidade de preservá-la. Drummond povoou seus textos com assuntos que vão do político e notório ao mais íntimo e pessoal. Falou de guerras e amores, de pequenas cidades e grandes metrópoles, de amigos perdidos e inimigos conquistados. Tímido, fez confissões eróticas e cuspiu fogo. Sempre com palavras, sem nunca perder a elegância. Por isso – e por muito mais – ele ganha na próxima segunda-feira uma data para ser só sua. No que depender de seus admiradores, a partir deste ano, o 31 de outubro (quando se comemora seu nascimento) passa a ser o Dia D, só de Drummond, e será sempre recheado de eventos em torno de sua obra – algo como acontece na Irlanda com o Bloomsday, dedicado ao escritor James Joyce (1882-1941). Não há em toda a literatura brasileira alguém que tenha experimentado tanto quanto Drummond. Não houve aventura poética, seja no que diz respeito ao estético, ao existencial ou ao linguístico, que Drummond não tenha topado. Ele aprendeu com autores importantíssimos, gente como Manuel Bandeira e Mario de Andrade, e, depois, serviu de ponto de partida para outros poetas importantíssimos, como João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar. Virou figura central e é, sem dúvida, “o” poeta brasileiro.

seja o primeiro a comentar

NOBEL DE LITERATURA 2011

 O poeta sueco Tomas Tranströmer é o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2011, anunciou hoje a Real Academia Sueca. A Academia destacou a obra de Tranströmer porque “através de suas imagens condensadas e translúcidas ele forneceu acesso transparente à realidade”. Tranströmer nasceu em 1931 e estreou no mercado literário em 1954 com seu livro “17 dikter” (“17 poemas”), traduzido para cerca de 50 idiomas. Recebeu distinções importantes como o Prêmio Bonnier para a Poesia, o Prêmio Neustadt e o Prêmio Petrarch da Alemanha. Entre suas obras traduzidas para o português estão o “O Grande Enigma” e “Pelos vivos e mortos”. Traströmer é o primeiro poeta agraciado com o Nobel desde que a polonesa Wislawa Szymborska ganhou a honraria em 1996. O poeta sueco sucede o escritor peruano Mario Vargas Llosa, quem ganhou o prestigioso prêmio no ano passado. Além de poeta, Tranströmer é psicólogo e se dedica à reabilitação de delinquentes juvenis. O prêmio é dotado de 10 milhões de coroas suecas, o equivalente a R$ 2,7 milhões. Ao anúncio do Nobel de Literatura seguirá nesta sexta-feira a láurea da Paz e na segunda-feira a de Economia.

seja o primeiro a comentar

ACABOU A FLIP!

O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade será o homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em 2012, quando o evento completa dez anos. O anúncio foi feito ontem no encerramento da 9.ª edição, que teve como homenageado o escritor Oswald de Andrade (1890-1954). As comemorações do décimo ano da festa também incluirão o lançamento de um livro com a história do evento, organizado pelo ex-curador Flávio Moura, e a reunião de imagens em vídeo. A Flip, segundo a organização, manteve o público entre 20 e 25 mil pessoas em Paraty – a pesquisa mais detalhada sai nos próximos dias.

A inglesa Liz Calder, idealizadora do evento, e Mauro Munhoz, diretor-geral da Casa Azul, ressaltaram as reformas percebidas na cidade, como a criação de um passeio ao lado do canal no centro histórico, onde ficaram todas as tendas. “O impacto na cidade ficou visível. Pudemos fazer algo que queríamos há muito tempo. Expandir e revitalizar um lado que tinha menos vida, preservando o lado histórico”, disse Munhoz. “Ganhamos mais espaço, mas mantivemos o caráter de intimidade do evento”, completou Liz.

Munhoz destacou o aumento de eventos paralelos da programação oficial (incluindo Casa da Cultura, Flipinha e Flipzona), que totalizaram 139 convidados – mas ficou clara também a expansão de atividades extraoficiais, como as programações preparadas pela Casa Sesc e a Casa do Instituto Moreira Salles. Outra característica perceptível para visitantes foi o crescimento do aspecto comercial envolvendo a Flip.

Entre as mesas, o curador Manuel da Costa Pinto disse ter se surpreendido principalmente com a convergência entre os convidados Carol Ann Duffy e Paulo Henriques Britto (a poeta inglesa, aliás, ainda não publicada no País, atraiu a atenção de ao menos três editoras), além de Kamile Samshie e Caryl Phyllips. Por outro lado, alfinetou a atuação do francês Claude Lanzmann, que criticou abertamente o mediador Márcio Seligman-Silva. “Uma atitude lamentável, equiparável ao nazismo.” Costa Pinto não foi confirmado como curador: o anúncio ocorre em setembro.

seja o primeiro a comentar

CARTAS DE PABLO

O livro Correspondencia en el camino al Premio Nobel apresenta correspondências inéditas que o poeta Pablo Neruda trocou com o historiador chileno Claudio Véliz na década de 60. Lançado ontem pelo escritor e professor chileno Abraham Quezada Vergara é um aporte documental que apresenta um ângulo novo da relação intelectual e pessoal do poeta com Véliz, criador do Instituto de Estudos Internacionais da Universidad do Chile. O escritor afirmou que a recopilação registrada no livro entra em uma amizade singular e ilumina aspectos ignorados ou subvalorizados sobre as biografias do poeta e a do historiador, doutor em história econômica da Universidade de Londres, “assim como do ambiente intelectual chileno, e, em alguma medida, britânico, de meados dos anos 60″. O volume contém um estudo preliminar, a transcrição das cartas com notas explicativas, um índice onomástico, outro temático e uma cronologia associada à correspondência. Segundo o autor, Neruda e Véliz se uniram a partir da bibliografia comum e do gosto pela literatura inglesa, adquirido, no caso do poeta, durante sua estadia no Sudeste Asiático

seja o primeiro a comentar

LIMA BARRETO

Autor de obras fundamentais da literatura brasileira, entre elas Triste Fim de Policarpo Quaresma, Recordações do Escrivão Isaías Caminha e Clara dos Anjos, algumas destas traduzidas no exterior, além de centenas de crônicas e contos como O Homem que sabia Javanês, o mulato Barreto tem sido reabilitado desde meados do século passado. Obras como essa biografia, que saiu pelo Selo Negro, da Summus Editorial, na coleção Retratos do Brasil Negro, que destaca a vida e a obra de figuras fundamentais da cultura, da política e da militância negra, fazem parte desse movimento. Barreto nasceu no dia 13 de maio de 1881, numa sexta-feira, na cidade do Rio de Janeiro. Barreto é um autor cuja obra marca um momento importante na literatura brasileira: o ponto de vista daquele que é humilhado. E, apesar da pobreza, do preconceito racial, do alcoolismo e de internações em hospício, ele foi um intelectual digno, de uma lucidez ímpar, exemplar. A obra de Lima Barreto contribui até hoje para o despojamento da linguagem escrita e sua aproximação com a linguagem oral, além de incentivar a dicção literária das zonas suburbanas ou periféricas das grandes cidades, e, em especial, do contingente negro-brasileiro, de cuja literatura ele se tornou um precursor.

O livro retoma períodos de formação intelectual do autor, reflexos da vida pessoal em suas obras e a atualidade de seus textos em relação a alguns assuntos, focando na questão do racismo e preconceito e o papel do futebol na vida social do brasileiro. Porém, os textos de Barreto abordam outros temas atuais como a corrupção política, violência contra civis por parte das forças policiais, violência contra mulher, ostentação social, parcialidade da imprensa, literatos esnobes e hermetismo e feminismo. Há uma ligação entre Barreto e Cruz e Souza. O poeta negro catarinense e Barreto não chegaram a se corresponder – quando Cruz e Sousa morreu, em 1896, aquele tinha apenas 15 anos -, mas há indício de que a leitura da obra dele teria inspirado a criação do personagem Leonardo Flores, poeta presente no romance Clara dos Anjos. Ele chegou também a expressar em artigo a preocupação com o estudo da obra de Cruz e Sousa, cobrando dos amigos deste tal tarefa.



seja o primeiro a comentar