Com 9 mil habitantes, a minúscula Cordisburgo, na região central de Minas Gerais, a 120 quilômetros de Belo Horizonte, torna-se, durante sete dias, um centro de estudos e festejos em homenagem a seu mais conhecido cidadão: João Guimarães Rosa (1908-1967). Várias entidades se unem para realizar a Semana Roseana, este ano em sua 23ª edição. Desde o último domingo (10) até o próximo sábado (16), palestras, apresentações artísticas, oficinas e caminhadas agitam a pacata cidade. E na abertura oficial, o diretor do Museu Casa de Guimarães Alves, Ronaldo Alves de Lima, anunciou um projeto de revitalização da casa, com apoio da Superintendência de Museus e Artes Visuais de Minas Gerais e patrocínio da Petrobras. O museu, instalado na casa onde Guimarães Rosa morou até os nove anos, tem a peculiariedade da presença dos Miguilins, jovens e crianças que narram histórias escritas pelo escritor. O grupo foi formado em 1995 por Calina Guimarães, prima do autor. O primeiro contador foi José Maria Gonçalves, o Nezito.
Ao mesmo tempo em que ajudou a tornar a Semana Roseana mais popular, o projeto permitiu desmistificar a fama em torno da obra de Guimarães Rosa, considerada “difícil”. “Narrar é resistir”, comentou a pesquisadora Bernardina Leal, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em uma das palestras, realizada nesta quarta-feira (13). Miguilim, claro, é outro dos personagens do escritor. A presença do escritor é percebida nas ruas, em nomes de estabelecimentos e frases escritas nas paredes. Tudo para lembrar o autor que, quando criança, preocupava os pais porque não parava de ler e estudar. Tanto que o pai de Guimarães Rosa, seu Florduardo, pediu a uma criança da vizinhança, Juca Bananeira, que fizesse companhia a Joãozito – como o menino era conhecido –, porque ele não brincava. Quem conta a história é José Osvaldo dos Santos, o Brasinha, comerciante e, principalmente, colecionador de histórias e memórias do universo roseano. Por volta dos 20 anos, Brasinha conheceu Juca, que tinha uma barraca diante da loja onde ele trabalhava. E ficou fascinado quando o amigo de infância de Joãozito contou: “Eu estou dentro do ‘Sagarana’ (obra publicada em 1946)”. Como diz Brasinha, “as pessoas aqui não precisam ler, elas são parte da obra”.
“Ele (Guimarães Rosa) não gostava muito de academia, ciências, essas coisas. Ele usava nós, os ‘capiau’”, brinca Maria da Clara, a Clarinha, cantora popular e criadora do grupo cultural Acadêmicos do Sertão, fundado há cinco anos. Ela também é defensora de projetos voltados à reciclagem do lixo, que conheceu de perto em seu trabalho como gari. No primeiro dia da Semana Roseana, Clarinha organizou uma apresentação diante da Igreja Matriz, com danças, cantorias e até a participação de cavalos e bois. Conta que pensou em toda a montagem com base em apenas uma frase de Guimarães Rosa (a que abre este texto). Como falou o escritor, figuras como tropeiros e vaqueiros “enriqueciam-me a imaginação”.