A VIDA É MUITO INJUSTA!
Fazia muitos anos que não se viam, na verdade, os anos ultrapassavam duas décadas. Eram “carne e osso”, melhores amigos, confidentes. O primeiro, distraído, como sempre, vinha de um lado, assobiando, olhando os produtos, uma paradinha aqui, outra ali; bermuda cáqui, chinelões, camiseta de surfista em tom laranja com dizeres purpurinados, presente do filho no último Dia dos Pais. O segundo, vinha no corredor oposto, também empurrando um carrinho, lista na mão, concentrado, parava nas prateleiras, olhava vagarosamente os produtos; sapato, calça e camisa de marcas italianas, todos comprados na última viagem à Itália. Quando dava uma guinada para o corredor dos importados o avistou de longe, ambos se olharam, avançaram, pensavam a mesma coisa, o tempo parou, ou melhor, voltou. Sorrisos discretos no canto da boca, mentes acelerando o pensamento, os carrinhos corriam apressados e, pronto, foi, o encontro!
- Não tô acreditando! – abraço apertado.
- Cara, quanto tempo, o que é isso, te encontrar aqui – tapa nas costas, daqueles fortes, que você acha que o sujeito vai vomitar o pulmão.
- Cara, bom te ver, você sumiu, evaporou – soquinho no peito, gesto de intimidade entre alguns machos – desde a festa do Tito não te vejo! Onde você anda?
- Estamos em Sampa.
- Legal, sempre tô indo para SP. O que tá inventando lá?
- Trabalho com informática, internet.
- Há, já ficou rico Polinha (esse era seu apelido)? E a Verônica, tudo certo?
- Ela tá bem, olha cara, não podemos nos queixar.
- Onde vocês moram lá? Aquele trânsito é um inferno, como vocês aguentam?
- Moramos em Alphaville, mas eu não pego trânsito, vou para o escritório de helicóptero. E a Susi?
- Humm…tá, tá boazinha.
- Viemos visitar os pais da Verônica. E você pelo jeito mora por aqui né, conta, trabalha onde?
- É, sim, optamos por uma vida mais calma, com qualidade, sabe como é. Trabalho com o mercado imobiliário.
- Humm, legal, bom, tem que nos visitar em SP, aqui, pega, meu cartão, tem meu celular, e-mail, me liga, vamos nos falar.
- Sim, claro, bom te encontrar.
Tudo de novo, abraços, tapinhas, soquinhos.
- Amor, você não faz ideia de quem eu encontrei no supermercado.
- Quem?
- O Marcos.
- Não.
- Sim.
- Jura?
- Juro. Tá rico, mora em Alphaville, tem helicóptero, vi sair do estacionamento com um Jaguar. Disse que trabalha com informática em SP.
- Contrabando?
- Não sei.
- E a cretina da Verônica?
Silêncio.
- Calma amor, ele sempre foi trambiqueiro.
- Deve ser algum negócio ilegal, escuso, eu aposto, ele sempre foi um burro! A vida é muito injusta mesmo, porque ele tá rico e não eu.
- Calma amor, a vida é injusta mesmo!
“Sabe-se que enquanto vivemos estamos mais ou menos expostos à inveja, mas depois da nossa morte os nossos inimigos deixam de nos odiar”. (Demóstenes)